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BOWIE 70 CHEGA HOJE ÀS LOJAS

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“Bowie 70”, o disco de tributo a David Bowie produzido por David Fonseca está a partir de hoje disponível em todas loja especializadas e plataformas digitais de música.

 

O disco que conta com a participação de treze das melhores vozes nacionais foi entretzanto apresentado à media com a inclusão de um eleoquente texto de Nuno Galopim que reproduzimos:

“Há uma cena no filme “This Must Be The Place”, de Paolo Sorrentino, na qual o protagonista – um músico interpretado por Sean Penn visualmente inspirado na imagem de Robert Smith dos The Cure – lembra que o tema “This Must Be The Place (Naive Melody)” não é dos Arcade Fire, mas sim uma canção original dos Talking Heads… A cena fez-me lembrar quanta gente, em meados dos anos 90, reparava, com surpresa, que uma das canções que os Nirvana tinham levado ao alinhamento do (magnífico) “MTV Unplugged” não era um tema de Kurt Cobain e seus companheiros mas sim, afinal, um original de David Bowie… Ou seja, nada mais nada menos do que “The Man Who Sold The World”, o tema-título do seu terceiro álbum, editado em 1970. É certo que não podemos comparar a quantidade de versões marcantes feitas a partir de temas de David Bowie com o volume de canções de Bob Dylan, dos Beatles ou de Leonard Cohen que outras vozes levaram a disco ao longo dos anos. David Bowie é de forma unânime reconhecido como tendo sido uma das figuras mais influentes de toda a história da cultura popular. Ouvimo-lo mais vezes por si mesmo do que noutras vozes. Mas desde que, há cerca de um ano, nos deixou (despedindo-se com “Blackstar”, um dos mais notáveis dos seus discos), a sua música tem começado a ganhar corpo noutras vozes, aos poucos algumas das suas canções, uma a uma, começando a transformar-se em verdadeiros standards. “Bowie 70”, de certa forma, faz parte desse processo agora em curso…

É verdade que, se caminharmos entre as obras de outros músicos encontrávamos já aqui e ali algumas versões que se fizeram notar ao longo dos tempos. Como, por exemplo, quando Beck deu voz a “Sound and Vision” numa versão orquestral com 160 músicos ou ele mesmo cantou “Diamond Dogs” em “Moulin Rouge” de Baz Luhrman. Ou quando Wes Anderson chamou Seu Jorge à banda sonora de “Um Peixe Fora de Água”, para a qual o músico brasileiro gravou versões, em português, de clássicos de Bowie.

David Bowie não era das mais óbvias entre as figuras de proa do rock dos setentas a brilhar mais entre nós em inícios e até a meio da década, quando era já uma estrela global. Houve, naturalmente, gente atenta que o escutou a tempo e horas nos dias em que ele mesmo inventava e reinventava as figuras pelas quais encarnava os ambientes dos álbuns “Ziggy Starduyst and the Spiders From Mars”, “Diamond Dogs” ou “Station to Station”… Mas vivia-se entre nós um outro processo de transformações nas esferas da política e da sociedade. E quando Bowie iluminava outras latitudes com revelações e surpresa, outros valores estavam na ordem do dia por estes lados. Mas quando a ebulição política começou a assentar já os ecos do Bowie berlinense, o esteta que inventava a pop do futuro, cativaram uma nova geração. E, mais ainda, o Bowie de oitentas (que tantas opiniões dividiu), fez-se finalmente estrela maior no panorama pop deste lado da fronteira…

O David Fonseca, que é uns seis anos mais novo do que eu, encontrou-o num momento em que, ao contrário do que sucedera para a geração anterior à nossa, David Bowie não era mais um segredo partilhado entre amigos melómanos e atentos, mas uma realidade que escrevia os cabeçalhos dos acontecimentos musicais de então. Não que isso fosse mau. Pelo contrário. E que bom que foi viver os oitentas a ter em canções como “Let’s Dance”, “Modern Love”, “Absolute Beginers” ou “This Is Not America” no papel de verdadeiros fenómenos de popularidade. Chamavam atenção para quem cantava. Aguçavam a curiosidade de querer saber mais sobre ele. De viajar no tempo e descobrir o que sucedera antes… De nos dar forças para vencer os tempos menos suculentos que se seguiram, sobretudo com aquele tremendo tiro ao lado que foram os Tin Machine. E, depois, saborear reencontros inesquecíveis como os que chegaram com os discos editados entre 1993 e 2003. E, com ainda maior surpresa, os sublimes álbuns que fecharam o ciclo entre “The Next Day” (2013) e “Blackstar” (2016).

“Bowie 70” é por isso uma expressão muito pessoal (e muito nossa também) de como David Bowie foi aqui vivido, saboreado e tornado peça fundamental e de grande referência. Trazê-lo para novas vozes, novos arranjos, novas vidas é uma forma ativa de evitar a poeira do esquecimento. Os seus discos continuam a ouvir-se. Há reedições em curso. Mas é pelas versões que uma obra não se fecha nunca no passado e entre memórias. Porque vive. E, ao contrário de James Bond, uma canção não vive só duas vezes…

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